"The Project Gutenberg EBook of Viagens na Minha Terra, by Jo�o Baptista da Silva Leit�o de Almeida Garrett This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included with this eBook or online at www.gutenberg.org Title: Viagens na Minha Terra (Completo) Author: Jo�o Baptista da Silva Leit�o de Almeida Garrett Release Date: January 22, 2008 [EBook #24401] Language: Portuguese Character set encoding: ISO-8859-1 *** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK VIAGENS NA MINHA TERRA ***
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*Nota de editor:* Devido � quantidade de erros tipogr�ficos existentes neste texto, foram tomadas v�rias decis�es quanto � vers�o final. Em caso de d�vida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final do primeiro e segundo volumes deste livro encontrar� listas de erros corrigidos. Rita Farinha (Jan. 2008)
OBRAS DE J. B. DE A. GARRETT. VIII. (PRIMEIRO DAS VIAGENS)
VIAGENS NA MINHA TERRA POR J. B. DE ALMEIDA-GARRETT. I LISBOA NA TYPOGRAPHIA DA GAZETA DOS TRIBUNAIS. 1846.
Os editores d'esta obra, vendo a popularidade extraordinaria que ella tinha publicada em fragmentos na _Revista_, intenderam fazer um servi�o �s lettras e � gloria do seu paiz, imprimindo-a agora reunida em um livro, para melhor se pod�r avaliar a variedade, a riqueza e a originalidade de seu stylo inimitavel, da philosophia profunda que incerra, e s�bre tudo o grande e transcendente pensamento moral a que sempre tende, ja quando folga e ri com as mais graves coisas da vida, ja quando seriamente discute por suas leviandades e pequenezas. As _Viagens na minha terra_, s�o um d'aquelles livros raros que so podiam ser escriptos por quem, como o auctor de _Cam�es_ e de _Cat�o_, de _D. Branca_ e do _Portugal na Balan�a da Europa_, do _Auto de Gil-Vicente_ e do _Tractado de Educa��o_, do _Alfageme_ e de _Fr. Luiz de Souza_, do _Arco de Sanct'Anna_ e da _Historia Litteraria de Portugal_, de _Adozinda_ e das _Leituras Historicas_ e de tantas produc��es de tam variado genero, possue todos os stylos e, dominando uma lingua de immenso pod�r, a costumou a servir-lhe e obedecer-lhe;--por quem com a mesma facilidade sobe a orar na tribuna, entra no gabinete nas graves discuss�es e demonstra��es da sciencia--voa �s mais altas regi�es da lyrica, da epopeia e da tragedia, lida com as fortes paix�es do drama, e baixa �s n�o menos difficeis trivialidades da comedia;--por quem ao mesmo tempo, e como que mudando de natureza, p�de dar-se todo �s mais aridas e materiaes pondera��es da administra��o e da politica, e redigir com admiravel precis�o, com uma exac��o ideologica que talvez ninguem mais tenha entre n�s, uma lei administrativa ou de instruc��o p�blica, uma constitui��o politica, ou um tractado de commercio. Orador e poeta, historiador e philosopho, cr�tico e artista, jurisconsulto e administrador, erudito e homem d'Estado, religioso cultor da sua lingua e falando correctamente as extranhas--educado na pureza classica da antiguidade, e versado depois em todas as outras litteraturas--da meia-edade, da renascen�a e contemporanea--o auctor das Viagens Na Minha Terra � egualmente familiar com Homero e com o Dante, com Plat�o e com Rousseau, com Thucidides e com Thiers, com Guizot e com Xenophonte, com Horacio e com Lamartine, com Machiavel e com Chateaubriand, com Shakspeare e Euripedes, com Cam�es e Calderon, com Goethe e Virgilio, Schiller e S�-de-Miranda, Sterne e Cervantes, Fenelon e Vieira, Rabelais e Gil-Vicente, Addison e Bayle, Kant e Voltaire, Herder e Smith, Bentham e Cormenin, com os Encyclopedistas e com os Sanctos-Padres, com a Biblia e com as tradic��es sanscritas, com tudo o
que a arte e a sciencia antiga, com tudo o que a arte emfim e a sciencia moderna teem produzido. Ve-se isto dos seus escriptos, e especialmente se ve d'este que agora public�mos apezar de composto bem claramente ao correr da penna. Mas ainda assim, e com isto somente, elle n�o faria o que faz se n�o junctasse a tudo isso o profundo conhecimento dos homens e das coisas, do cora��o humano e da raz�o humana; se n�o fosse, al�m de tudo o mais, um verdadeiro homem do mundo, que tem vivido nas c�rtes com os principes, no campo com os homens de guerra, no gabinete com os diplomaticos e homens d'Estado, no parlamento, nos tribunaes, nas academias, com todas as notabilidades de muitos paizes--e nos sal�es emfim com as mulheres e com os frivolos do mundo, com as elegancias e com as falsidades do seculo. De tantas obras de tam variado genero com que, em sua vida ainda tam curta, este fecundo escriptor tem inriquecido a nossa lingua, � �sta talvez, torn�mos a dizer, a que elle mais descuidadamente escreveu: mas � tambem a que, em nossa opini�o, mais mostra os seus immensos pod�res intellectuaes, a sua erudi��o vast�ssima, a sua flexibilidade de stylo espantosa, uma philosophia transcendente, e por fim de tudo, o natural indulgente e bom de um cora��o recto, puro, amigo da justi�a, adorador da verdade, e inimigo declarado de todo o sophisma. Tem sido accusado de sceptico: � a accusa��o mais absurda e que so denuncia, em quem a faz, ou grande ignorancia ou grande m� fe. Quando o nosso auctor lan�a m�o da cortante e destruidora arma do sarcasmo, que elle maneja com tanta f�r�a e dexteridade, e que talvez por isso mesmo, conscio de seu pod�r, elle rara vez toma nas m�os--veja-se que � sempre contra a hypocrisia, contra os sophismas, e contra os hypocritas e shopistas de _todas as c�res_, que elle o faz. Cren�as, opini�es, sentimentos, respeita-os sempre. As mesmas suas ironias que tanto ferem, n�o as dirige nunca s�bre individuos; ve-se que despreza a facil vingan�a que, com tam poderosas armas, podia tomar de inimigos que o n�o poupam, de invejosos que o calumniam, e a quem, por cada dicterio insulso e ephemero com que o teem pretendido injuriar, elle podia condemnar ao eterno oppr�brio de um pelourinho immortal como as suas obras. Ainda bem que o n�o faz! mais immortaes s�o as suas obras, e quanto a n�s, mais punidas ficam os seus emulos com esse despr�zo do homem superior que se n�o appercebe de sua malignidade insulsa e insignificante. Voltando � accusa��o de septicismo, ainda dizemos que n�o p�de ser septico o espirito que concebeu, e em si achou c�res com que pintar tam vivos, characteres de cren�as tam fortes como o de Cat�o, de Cam�es, de Fr. Luiz de Sousa,--e aqui n'esta nossa obra, os de Fr. Diniz, de Joanninha, da Irman Francisca. N�o analys�mos agora as Viagens Na Minha Terra: a obra n�o est� ainda completa e n�o podia completar-se portanto o juizo; dizemos somente o que todos dizem e o que todos podem julgar ja. A nosso r�go, e por fazer mais digna da sua reputa��o �sta segunda publica��o da obra, o auctor prestou-se a dirigi-la elle mesmo, corrigiu-a, additou-a, alterou-a em muitas partes, e a illustrou com as notas mais indispensaveis para a geral intelligencia do texto: de modo que sahir� muito melhorada agora do que primeiro se imprimiu.
VIAGENS NA MINHA TERRA. Qu' il est glorieux d'ouvrir une nouvelle carri�re, et de paraitre tout-�-coup dans le monde savant un livre de d�couvertes � la main, comme une com�te inattendue �tincelle dans l'espace! X. DE MAISTRE.
CAPITULO I. De como o auctor d'este erudito livro se resolveu a viajar na sua terra, depois de ter viajado no seu quarto; e como resolveu immortalizar-se escrevendo �stas suas viagens. Parte para Santarem. Chega ao Terreiro-do-Pa�o, imbarca no vapor de Villa-Nova; e o que ahi lhe succede. A Deduc��o-Chronologica e a Baixa de Lisboa. Lord Byron e um bom charuto. Travam-se de raz�es os Ilhavos e os Bordas-d'agua: os da cal�a larga levam a melhor. Que viage � roda do seu quarto quem est� � beira dos Alpes, de hynverno, em Turim, que � quasi tam frio como San'Petersburgo--intende-se. Mas com este clima, com este ar que Deus nos deu, onde a laranjeira cresce na horta, e o mato � de murta, o proprio _Xavier de Maistre_, que aqui escrevesse, ao menos ia at� o quintal. Eu muitas vezes, n'estas suffocadas noites d'estio, viajo at� � minha janella para ver uma nesguita de Tejo que est� no fim da rua, e me inganar com uns verdes de �rvores que alli vegetam sua laboriosa infancia nos intulhos do Caes-do-Sodr�. E nunca escrevi �stas minhas viagens nem as suas impress�es: pois tinham muito que ver! Foi sempre ambiciosa a minha penna: pobre e suberba, quer assumpto mais largo. Pois hei de dar-lh'o. Vou nada menos que a Santarem: e protesto que de quanto vir e ouvir, de quanto eu pensar e sentir se hade fazer chronica. Era uma idea vaga, mais desejo que ten��o, que eu tinha ha muito de ir conhecer as riccas varzeas d'esse Ribatejo, e saudar em seu alto cume a mais historica e monumental das nossas villas. Aballam-me as instancias de um amigo, decidem-se as tonterias de um jornal, que por mexeriquice quiz incabe�ar em designio politico determinado a minha visita. Pois por isso mesmo vou:--_pronunciei-me_. S�o 17 d'este mez de julho, anno de gra�a de 1843, uma segunda-feira, dia sem nota e de boa estrea. Seis horas da manham a dar em San'Paulo, e eu a caminhar para o Terreiro-do-Pa�o. Chego muito a horas, invergonhei os meus madrugadores dos meus companheiros de viagem, que todos se prezam de mais matutinos homens que eu. Ja vou quasi no fim da pra�a, quando oi�o o rodar grave mas pressuroso de uma carro�a _d'ancien r�gime_: � o nosso chefe e commandante, o capit�o da impreza, o Sr. C. da T. que chega em estado.
Tambem s�o chegados os outros companheiros: o sino d� o �ltimo rebate. Partimos. N'uma _regata_ de vapores o nosso barco n�o ganhava decerto o premio. E se, no andar do progresso, se chegarem a instituir alguns isthmicos ou olympicos para este genero de carreiras--e se para ellas houver algum Pindaro ancioso de correr, em strophes e antistrophes, atraz do vencedor que vai coroar de seus hymnos immortaes--n�o cabe nem um triste minguado epodo a este can�ado corredor de Villa-nova. � um barco serio e sizudo que se n�o mette n'essas andan�as. Assim vamos de todo o nosso vagar contemplando este majestoso e pittoresco amphitheatro de Lisboa oriental, que �, vista de f�ra, a mais bella e grandiosa parte da cidade, a mais characteristica, e onde, aqui e alli, algumas raras fei��es se percebem, ou mais exactamente se adivinham, da nossa velha e boa Lisboa das chronicas. Da Fundi��o para baixo tudo � prosaico e burguez, chato, vulgar e semsabor como um periodo da _Deduc��o Chronologica_, aqui e alli assoprado n'uma tentativa ao grandioso do mau g�sto, como alguma oitava menos rasteira do _Oriente_. Assim o povo, que tem sempre melhor g�sto e mais puro do que essa escuma desc�rada que anda ao decima das popula��es, e que se chama a si mesma por excellencia a _Sociedade_, os seus passeios favoritos s�o a Madre-de-Deus e o Beato e Xabregas e Marvilla e as hortas de Chellas. A um lado a immensa majestade do Tejo em sua maior extens�o e pod�r, que alli mais parece um pequeno mar mediterraneo; do outro a frescura das hortas e a sombra das �rvores, palacios, mosteiros, sitios consagrados todos a recorda��es grandes ou queridas. Que outra sahida tem Lisboa que se compare em belleza com �sta? Tirado Bellem, nenhuma. E ainda assim, Bellem � mais arido. J� saud�mos Alhandra, a toireira; Villa-franca, a que foi de Xira, e depois da Restaura��o, e depois outra vez de Xira, quando a tal restaura��o cahiu, como a todas as restaura��es sempre succede e hade succeder, em odio e execra��o tal que nem uma pobre villa a quiz para sobrenome. --'A quest�o n�o era de restaurar nem de n�o restaurar, mas de se livrar a gente de um gov�rno de patuscos, que � o mais odioso e ingulhoso dos governos possiveis.' � a reflex�o com que um dos nossos companheiros de viajem accudiu ao princ�pio de pondera��o que eu ia involuntariamente fazendo a respeito de Villa-franca. Mas eu n�o tenho odio nenhum a Villa-franca, nem a esse famoso cirio que l� foi fazer � velha monarchia. Era uma coisa que estava na ordem das coisas, e que por f�r�a havia de succeder. Este necessario e inevitavel reviramento por que vai passando o mundo, hade levar muito tempo, hade ser contrastado por muita reac��o antes de completar-se... No entretanto vamos accender os nossos charutos, e deixemos os precintos aristocraticos da r�: � proa, que � paiz de cigarro livre! N�o me lembra que lord Byron celebrasse nunca o prazer de fummar a b�rdo. � notavel esquecimento no poeta mais imbarcadi�o, mais marujo que
ainda houve, e que at� cantou o inj�o, a mais prosaica e nauseante das miserias da vida! Pois n'um dia d'estes, sentir na face e nos cabellos a brisa refrigerante que passou por cima da agua, em quanto se aspiram mollemente as narcoticas exhala��es de um bom cigarro da Havana, � uma das poucas coisas sinceramente boas que ha n'este mundo. Fummemos! Aqui est� um campino fummando gravemente o seu cigarro de papel, que me vai imprestar lume. 'Dou-lh'o eu, senhor...' accode cortezmente outra figura mui diversa, cujas fei��es, trajo e modos singularmente contrastam com os do _musarabe_ ribatejano. Accenderam-se os charutos, e attent�mos mais de vagar na companhia em que estavamos. Era com effeito notavel e interessante o grupo a que nos tinhamos chegado, e destacava pittorescamente do resto dos passageiros, mistura hybrida de trajos e fei��es descharacterizadas e vulgares--que abunda nos arredores de uma grande cidade maritima e commercial.--N�o assim este grupo mais separado com que fomos topar. Constava elle de uns d�ze homens; cinco eram d'esses famosos athletas da Alhandra que v�o todos os domingos colher o _pulverem olympicum_ da pra�a de Sanct'Anna, e que, � voz soberana e irresistivel de: _� unha, � unha, � cernelha!_.... correm a arcar com mais generosos, n�o mais possantes, animaes que elles, ao som das immensas palmas, e a tr�co dos raros pintos por que se manifesta o sempre clamoroso e sempre vazio enthusiasmo das multid�es. Voltavam � sua terra os meus cinco luctadores ainda em trajo de pra�a, ainda esmurrados e cheios de gl�ria da contenda da vespera. Mas aop� d'estes cinco e de alterca��o com elles--ja direi porqu�--estavam seis ou sette homens que em tudo pareciam os seus antipodas. Emvez do cal��o amarello e da jaqueta de ramagem que caracterizam o homem do forcado, estes vestiam o amplo saiote grego dos varinos, e o tabardo arrequifado siciliano de panno de varas. O campino, assim como o saloio, tem o cunho da ra�a africana; estes s�o da familia pelasga: fei��es regulares e moveis, a f�rma agil. Ora os homens do norte estavam disputando com os homens do sul: a quest�o f�ra interrompida com a nossa chegada � proa do barco. Mas um dos Ilhavos--bella e poetica figura de homem--voltando-se para n�s, disse n'aquelle seu tom accentuado:--'Ora aqui est� quem hade decidir: vejam-n'os senhores. Elles, por agarrar um toiro, cuidam que s�o mais que ninguem, que n�o ha quem lhes chegue. E os senhores, a serem ca de Lisboa, h�ode dizer que sim. Mas n�s...' --Nenhum de n�s � de Lisboa: so este senhor que aqui vem agora. Era o C. da T. que chegava. --'Este conhe�o eu; este � dos nossos (bradou um homem de forcado, assim que o viu). Isto � um fidalgo como se quer. Nunca o vi n'uma ferra, isso � verdade; mas aqui de Vallada a Almeirim ninguem corre mais do que elle por sol e por chuva, e hade saber o que � um boi de lei, e o que � lidar com gado.'
--'Pois oi�amos l� a quest�o.' --'N�o � quest�o'--tornou o Ilhavo: 'mas se este senhor fidalgo anda por Almeirim, para Almeirim vamos n�s, que era uma charneca o outro dia, e hoje � um jardim, benza-o Deus!--mas n�o foram os campinos que o fizeram, foi a nossa gente que o sachou e plantou, e o fez o que �, e fez terra das areas da charneca.' --'L� isso � verdade'. --'N�o, n�o �! Que est� forte habilidade fazer dar trigo aqui aos nateiros do Tejo, que � como quem semeia em manteiga. � uma lavoira que a faz Deus por sua m�o, regar e adubar e tudo: e o que Deus n�o faz, n�o fazem elles, que nem sabem ter m�o n'esses monch�es c'o plantio das arvores: so l� por cima � que algumas teem mettido, e � bem pouco para o rio que �, e as riccas terras que lhes levam as inchentes.--Mas n�s, pe no barco pe na terra, tam depressa estamos a sachar o milho na charneca, como vimos por ahi abaixo com a vara no peito, e o saveiro a pegar n'area por n�o haver agua... mas sempre labutando pela vida'. --'A f�r�a � que se falla'--tornou o campino para estabelecer a quest�o em terreno que lhe convinha.--'A f�r�a � que se falla: um homem do campo que se deita alli � cernelha de um toiro que uma companha inteira de varinos lhe n�o pegava, com perd�o dos senhores pelo rabo!..' E refor�ou o argumento com uma gargalhada triumphante, que achou echo nos interessados circumstantes que ja se tinham apinhado a ouvir os debates. Os Ilhavos ficaram um tanto abatidos; sem perderem a consciencia da sua superioridade, mas acanhados pela algazarra. Parecia a esquerda de um parlamento quando ve sumir-se, no borburinho acintoso das turbas ministeriaes, as melhores phrases e as mais fortes raz�es dos seus oradores. Mas o orador ilhavo n�o era homem de se dar assim por derrotado. Olhou para os seus, como quem os consultava e animava, com um gesto expressivo, e voltando-se a n�s, com a direita estendida aos seus antagonistas: --'Ent�o agora como � de f�r�a, quero eu saber, e estes senhores que digam, qual � que tem mais f�r�a, se � um toiro ou se � o mar'. --'Essa agora!..' --'Queriamos saber'. --'� o mar'. --'Pois n�s que brig�mos com o mar, oito e dez dias a fio n'uma tormenta, de Aveiro a Lisboa, e estes que brigam uma tarde com um toiro, qual � que tem mais f�r�a?' Os campinos ficaram cabisbaixos; o publico imparcial applaudiu por �sta vez a opposi��o, e o Vouga triumphou do Tejo.
CAPITULO II. Declaram-se typicas, symbolicas e mythicas �stas viagens. Faz o A. modestamente o seu proprio elogio. Da marcha da civiliza��o; e mostra-se como ella � dirigida pelo cavalleiro da Mancha D. Quixote, e por seu escudeiro Sancho Pan�a.--Chegada a Villa-Nova-da-Rainha, Supplicio de Tantalo.--A virtude galard�o de si mesma; e sophisma de Jeremias Bentham.--Azambuja. �stas minhas interessantes viagens h�ode ser uma obra prima, erudita, brilhante de pensamentos novos, uma coisa digna do seculo. Preciso de o dizer ao leitor, paraque elle esteja previnido; n�o cuide que s�o quaesquer d'essas rabiscaduras da moda que, com o titulo de _Impress�es de Viagem_, ou outro que tal, fatigam as imprensas da Europa sem nenhum proveito da sciencia e do adiantamento da especie. Primeiro que tudo, a minha obra � um symbolo... � um mytho, palavra grega, e de moda germanica, que se mette hoje em tudo e com que se explica tudo... quanto se n�o sabe explicar. � um mytho porque--porque... Ja agora rasgo o veo, e declaro abertamente ao benevolo leitor a profunda idea que est� occulta debaixo d'esta ligeira apparencia de uma viagemzita que parece feita a brincar, e no fim de contas � uma coisa s�ria, grave, pensada com um livro novo da feira de Leipsick, n�o das taes brochurinhas dos _boulevards_ de Paris. Houv..."
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