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Flores do Campo by João de Deus

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"Flores do Campo, por João de Deus João de Deus The Project Gutenberg EBook of Flores do Campo, by João de Deus This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included with this eBook or online at www.gutenberg.net Title: Flores do Campo Author: João de Deus Release Date: December 23, 2008 [EBook #27599] Language: Portuguese Character set encoding: ISO-8859-1 *** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK FLORES DO CAMPO *** Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This book was produced from scanned images of public domain material from the Google Print project.) Notas de Transcrição O índice da obra aparecia no fim do original. Nesta versão electrónica o índice foi movido para o inicio para facilitar a navegação e consulta. Foram corrigidos pequenos erros de impressão, sem que seja feita qualquer nota dessa correcção, visto que em nenhum dos casos a correcção altera o significado do texto. FLORES DO CAMPO -1- Flores do Campo, por João de Deus João de Deus A propriedade d’este livro pertence, no Brazil, ao snr. Joaquim Augusto da Fonseca. João de Deus FLORES DO CAMPO 2.ª EDIÇÃO CORRECTA PORTO LIVRARIA UNIVERSAL DE Magalhães & Moniz, Editores 12—Largo dos Loyos—14 1876 -2- Flores do Campo, por João de Deus João de Deus PORTO: 1876—TYP. DE A. J. DA SILVA TEIXEIRA 62, Cancella Velha, 62 INDICE Pag. A poesia A uma carta anonyma Duas rosas A uma mulher A D. Candida Nazareth Amor A donzella e o musgo Ultimo adeus Rosas Rosa e rosas A Hermann Presentimento Marina I—Apparição II—Saudade III—Eternidade IV—... 21 de setembro N’um album Beijo na face Thuribulo suspenso inda fluctuo 1 4 5 8 11 14 17 23 26 28 30 33 36 36 39 41 42 46 49 53 -3- Flores do Campo, por João de Deus João de Deus Luz d’intima influencia Resposta Pois se o homem, se anjo e nume Flôr e borboleta Remoinho Amores, amores Fabula Boas noites Gaspar Deixa que ao romper d’alva o cravo abrindo Carta Dá-me esse jasmim de cera Margarida No leito nupcial A minha mãi Beatriz Innocencia A Escriptura Sagrada A um Nuno A *** Luz da fé Resposta Meu casto lirio Ventura Arida palma A uns olhos azues Heresta Fragmento Se ao enlaçal-a no peito Nunca me ha-de esquecer 55 58 59 62 64 71 73 74 76 77 79 85 87 90 93 94 97 101 104 105 107 112 113 116 117 119 121 129 145 146 -4- Flores do Campo, por João de Deus João de Deus Dinheiro Duvida Caturras Foi-se-me pouco a pouco amortecendo Mãi e filho Toca a capello, vou vêl-o Amas, pobre animal! e tens tu pena? Não! Na folha d’um romance Lagrima celeste Descalça! Adeus! A Victoria Colonna N’um convento Sonho Á vista d’um retrato A lua Joven captiva Mulher! quando nos braços Um beijo Francisca de Rimini Paixão Escreve Malmequer Virginia Primeiro psalmo de David Segundo psalmo de David Cantico dos Canticos de Salomão I—Chegada II—Entrevista 147 150 154 160 170 173 174 175 181 182 185 187 190 191 193 196 198 200 203 205 207 212 214 219 221 227 229 231 231 239 -5- Flores do Campo, por João de Deus João de Deus III—Sonho IV—Noivado V—Surpreza VI—Passeio Ouviste-me não sei quê 242 244 251 259 266 [1] A POESIA EMBLEMA Camões e Byron—Scepticismo e Crença Vem d’alto gozar, lirio! Noite estrellada e tepida; A vista ao céo intrepida Lança, penetra o Empyreo. Dilata os seios tumidos; Larga este terreo albergue; Nas azas d’alma te ergue; Ergue os teus olhos humidos[2] Que vês?—Soes, de tal sorte Que os crêra tochas pallidas, Quando as guedelhas, madidas De sangue, arrasta a morte. —Transpõe-n’os; que, elevando-te, Por cada um d’aquelles, Milhões e milhões d’elles Verás alumiando-te. Ávante pois, acima Dos soes d’uma luz tremula; Alma dos anjos emula! Deus o teu vôo anima. -6- Flores do Campo, por João de Deus João de Deus Que vês?—Um vacuo eterno. —E n’elle?—Em ermo tumulo, Em ignea letra (cumulo D’horror) Byron—o inferno. —Foge.—O horror fascina-me. São reprobos que exhalam Horridos ais que abalam O inferno: oh Deus! anima-me.[3] —Escuta-os.—Escutemol-os. Como elles bramem, rugem, E o espaço uivando estrugem... Gelam-se os membros tremulos. —Entra.—Não posso.—Arromba. —Prohibem-m’o.—Subleva-te. —Prohibe-o Deus.—Eleva-te. Acima, ingenua pomba! Que vês? A luz clareia-me. Que céo, que azul ethereo! Oh extasi, oh mysterio! Sobeja a vida, anceia-me. —Falla.—Deus! que harmonia! Aqui a alma exalta-se; A alma aqui dilata-se... Camões!—É a poesia. Coimbra.[4] A UMA CARTA ANONYMA Não sabe a flôr quem manda a luz do dia, Nem quem lhe esparge o nectar que a deleita Ao vir raiando a aurora, E ella agradece as lagrimas que aceita, E ella as converte em balsamos que envia Ao mysterio, que adora. -7- Flores do Campo, por João de Deus João de Deus Lamartine. Coimbra.[5] DUAS ROSAS Que bonita, meu amor! Que perfeita, que formosa! A ti pozeram-te Rosa, Não te fizeram favor. A rosa, quem ha que a veja Bandeando, sem gostar? Mas por mais linda que seja A rosa, quando se embala, Não te ganha nem iguala A ti em indo a andar. A rosa tem linda côr, Não ha flôr de côr mais linda; Mas a tua côr ainda É mais fina e é melhor.[6] Murcha a rosa (que desgosto!) Só de lhe a gente bulir; E essas rosas do teu rosto É em alguem te tocando Que parece mesmo quando Ellas acabam de abrir. Cheiro, o da rosa, esse não, Não é mais do meu agrado, Que o teu bafo perfumado, A tua respiração. Depois a rosa em abrindo Vai-se-lhe o cheiro tambem: A tua bocca em te rindo Só o bom cheiro que exhala... E quando fallas, a falla, Isso é que a rosa não tem. Ella o que tem, meu amor? O cheiro, a côr e mais nada. Confessa, rosa animada! Que és outra casta de flôr. Os olhos só elles valem -8- Flores do Campo, por João de Deus João de Deus Duas estrellas, bem vês; Pois vozes que a tua igualem Na doçura, na pureza, Na terra, não, com certeza; Agora no céo, talvez.[7] Não ha assim perfeição, Não ha nada tão perfeito, Mas é um grande defeito O de não ter coração. N’isso é que te leva a palma A rosa, sendo uma flôr —Sem voz, sem vida, sem alma, Que abre logo á luz da aurora E á noite esconde-se e chora Pelo sol, o seu amor. Ora e se a rosa, vê bem, Tem amor, não tendo vida, Será coisa permittida Tu não amares ninguem? Suppões que Deus te agradece Essa isenção, minha flôr! Deus a ninguem reconhece Por filho senão quem ama: A terra e o céo proclama Que elle é todo puro amor. Messines.[8] A UMA MULHER Amo-te a ti, e a Deus. Teus sonhos são riquezas Talvez e fasto. Os meus, És tu, que me desprezas. Deixal-o. Amor acaso É racional? Não é. O fogo em que me abrazo É como a luz da fé; -9- Flores do Campo, por João de Deus João de Deus Que além de cega, apaga O facho da razão. Ama-se e não se indaga Se se é amado ou não.[9] Amo-te. O mais ignoro. Mas os meus ternos ais E as lagrimas que chóro Podem dizer o mais. Que chóro; se te admira. Nunca tiveste amor. Quem tem amor, suspira, E o suspirar é dôr. Ah! quando abraço e beijo O travesseiro e, assim, Acórdo e te não vejo, Vejo-me só a mim; Não sei, mulher! que anceio Se me traduz n’um ai! Confrange-se-me o seio, Rebenta o pranto e cái. Então, se por encanto Fallando em ti, mas só, Todo banhado em pranto Me visses, tinhas dó.[10] Tinhas. A piedade É filha da mulher, Que sempre quiz metade D’uma afflicção qualquer. Havias ao teu rosto De me apertar a mim, D’encher, fartar de gosto, Todo este abysmo; sim. Vós desprezaes embora Culto e adoração De quem vos ama; agora As dôres, essas não. Messines.[11] - 10 - Flores do Campo, por João de Deus João de Deus A D. CANDIDA NAZARETH Por occasião da morte de sua irmã Rachel e, poucos dias depois, de sua mãi Despe o luto da tua soledade E vem junto de mim, lirio esquecido Do orvalho do céo! Tens nos meus olhos pranto de piedade, E se és, mulher! irmã dos que hão soffrido, Mulher! sou irmão teu. Consolos não te dou, que não existe Quem de lagrimas suas nunca enxuto Possa as d’outro enxugar: Não póde allivios dar quem vive triste, Mas é-me dôce a mim chorar se escuto Alguem tambem chorar.[12] Botão de rosa murcho á luz da aurora! Que peccado equilibra o teu martyrio Na balança de Deus? Se é como justo e bom que elle se adora Quem te ha mudado a ti, ó rosa! em lirio, E em lirio os labios teus? Não enche elle de balsamos o calix Da flôr a mais humilde, e esses espaços Não enche elle de luz? Não veio o Filho seu, lirio dos valles! Só por amor de nós tomar nos braços Os braços d’uma cruz? Mulher, mulher! quando eu n’um cemiterio Levanto o pó dos tumulos sósinho: Eis, digo, eis o que eu sou. Mas quando penso bem n’esse mysterio Da virtude infeliz: vai teu caminho; Dois mundos Deus creou. Deus não dispara a setta envenenada Á pombinha que aos ares despedira Com mão traidora e vil.[13] Imagem sua, Deus não volve ao nada, Não aniquila a flôr que ao chão cahira Lá d’esse eterno abril. - 11 - Flores do Campo, por João de Deus João de Deus Has-de, cysne! expirando alçar teu canto, Has-de lá quando a lua da montanha Te acene o extremo adeus, Voar, Candida! ao céo, e ebria de encanto, No oceano d’amor que as almas banha, Unir teu canto aos seus. Seus, d’ellas, mãi e irmã, cinzas cobertas D’um só jacto de terra... oh desventura! Oh destino cruel! Vejo-as ainda ir com as mãos incertas Guiando-se uma á outra á sepultura, E a mãi: Rachel! Rachel! Coimbra.[14] AMOR Amo-te muito, muito. Reluz-me o paraiso N’um teu olhar fortuito, N’um teu fugaz sorriso. Quando em silencio finges Que um beijo foi furtado E o rosto desmaiado De côr de rosa tinges;[15] Dir-se-ha que a rosa deve Assim ficar com pejo, Quando a furtar-lhe um beijo O zephyro se atreve; E ás vezes que te assalta Não sei que idéa, joven! Que o rosto se te esmalta De lagrimas que chovem; Que fogo é que em ti lavra E as forças te aniquila, Que choras, mas tranquilla, E nem uma palavra? - 12 - Flores do Campo, por João de Deus João de Deus Oh! se essa mudez tua É como a que eu conservo, Lá quando á noite observo O que no céo fluctua; Ou quando, á luz que adoro, Ás horas do infinito, Nas rochas de granito Os braços cruzo e chóro;[16] Amamo-nos... Não cabe Em nossa pobre lingua O que a alma sente, á mingua De voz, que só Deus sabe. Coimbra.[17] A DONZELLA E O MUSGO Um dia, não sei que eu tinha... Uma tristeza tamanha! E lembra-me ir á montanha, Que temos aqui vizinha, Onde em tempo me entretinha Horas e horas sósinha Quando ainda se não estranha Que n’uma teia de aranha Se prenda uma innocentinha, Ou atraz d’uma avesinha Se cance a vêr se a apanha.[18] Depois é que o mundo falla E se mette com a vida De quem ás vezes se cala Por ser mais bem procedida. Que esta gente que faz gala Em coisa, que vê, contal-a, E sendo mal permittida Inda em cima acrescental-a, Teem a lingua comprida E bem deviam cortal-a. - 13 - Flores do Campo, por João de Deus João de Deus Vou pelo córrego acima, Subo á ponta do penedo; Que a vida só quem a estima É que da morte tem medo. A mesma tristeza anima A encarar a pé quedo A morte que se aproxima A tirar-nos do degredo, Que inda a gente se lastima De não acabar mais cedo. E alli sósinha chorando Me lembrava, ora a ventura Da minha infancia, inda quando Levava os dias brincando; Ora a desgraça futura, Que me estava annunciando[19] Não sei se a minha amargura, Se uma nuvem, grande e escura, Que se ia no ar formando E vinha já avançando, Como que á minha procura. E ainda o pranto corria E o cabello me batia No rosto, que me doía, Tal era a força do vento; Já tudo tão pardacento A nevoa e chuva fazia Que eu olhava, mas dizia: É nuvem ou penedia Aquelle vulto cinzento? O mar brilhante algum dia Como prata luzidia Já ninguem o distinguia Da terra e do firmamento: Uivar só é que se ouvia, Mas uivar sem sentimento; E como em grande tormento Se desvaira a phantasia: —Fosse eu mar, disse; valia Mais ser coisa bruta e fria, Como a rocha onde me sento.[20] Faz um trovão no momento Que soltava esta heresia; E áquella rouca harmonia Occorre-me um pensamento, - 14 - Flores do Campo, por João de Deus João de Deus Que me dá uma pancada O coração de tal modo, Como se o rochedo todo Desandasse na chapada. Era a voz da consciencia Que me accusava do crime De negar á Providencia A razão com que me opprime. Peço perdão, commovi-me E n’um extasi sublime Lagrimas de penitencia, Como um balsamo, uma essencia, Purificam-me e senti-me Com uma nova existencia. Ólho; as nuvens esvaíam-se: Os roncos do mar ouviam-se, Mas já mais de espaço a espaço. O sol ainda tão baço, De luz tão pouco brilhante, Que se media a compasso Como a cara d’um gigante, Descobre-se e resplandece![21] Ao longe o mar apparece; E tudo, mar, terra e céos Tão formoso me parece, Como se agora tivesse Sahido das mãos de Deus! No rochedo onde descança Meu corpo desfallecido, O verde musgo, vestido Sempre da côr da esperança, Agora reverdecido, Me ensina a ter confiança N’esse que do céo nos lança Em dia tempestuoso, Só para nosso repouso O arco da alliança. Pobre musgo, descuidado, Sem olhos para chorar, Sem poder alliviar Com seu pranto um desgraçado, Consolar-se e consolar! Fallas mais a meu agrado Que o livro mais afamado - 15 - Flores do Campo, por João de Deus João de Deus D’esses livros, que em lugar De nos dar consolação, Nos fazem cahir no chão Um pranto mal empregado,[22] E inda mais amargurado Nos deixam o coração. Colhi-o, pul-o no seio, E é hoje o livro que leio. Messines.[23] ULTIMO ADEUS Prestes, se inda na rocha de granito D’onde em tempo me vias te sentares, Não olhes para a terra ou para os mares, Olha sim para o céo, que é lá que habito. Lá tão longe de ti, mas não do terno, Bondoso pai que os dois nos ha gerado, Só para mágoas não, que bem guardado Nos tem tambem no céo prazer eterno.[24] Não se é só pó no fim de tanta mágoa. Senão, diga-me alguem que allivio é este Que sinto, quando á abobada celeste Alevanto os meus olhos rasos d’agua. Mentem os céos tambem? Os céos maldigo. Feras, tigres, tambem o céo povôam? Tambem os labios lá sorrindo côam Veneno desleal em beijo amigo? Mas na dôr é que os astros nos sorriem, E os homens não sorriem na desdita. Astros! fio-me em vós, e Deus permitta Que os infelizes sempre em vós se fiem. Intima voz do fundo, bem do fundo D’alma me diz (e as lagrimas me saltam): Vês os milhões de soes que o espaço esmaltam? Pisa a terra a teus pés, inda ha mais mundo. - 16 - Flores do Campo, por João de Deus João de Deus Ha depois d’esta vida inda outra vida. Não se reduz a nada um grão d’arêa, E havia de a nossa alma, a nossa idêa Nas ruinas do pó ficar perdida?[25] —Isso que pensa e quer (até me admiro), Isso que a luz nos traz, que a luz nos leva, Isso que me abre o céo que ao céo me eleva N’um teu cançado olhar, n’um teu suspiro! Onde, não sei eu bem, mas sei que existe Deus remunerador. Depois de mortos Hemos de vêr-nos, e um no outro absortos Fartar de glorias este amor tão triste. —Tão triste, e o coração que me adivinha N’este supplicio nosso este tormento! Nunca dos labios teus minimo alento N’um só beijo bebi em vida minha! E morro sem te vêr! Cabeça doida, Desasisado amor! Sonhar afflicto Um sonho até morrer... Não: resuscito; Morto tenho eu vivido a vida toda. * * *[26] ROSAS Trazeis-me rosas; d’onde as heis trazido, Boa velhinha e minha boa amiga? Rosas no inverno! permitti que o diga, Sois feiticeira: d’onde as heis colhido? Na primavera de meus annos, ólho, Mas vejo abrolhos e não vejo flôres: E vós colhêl-as, como as eu não colho... Sois feiticeira—enfeitiçaes d’amores.[27] Enfeitiçaes que a formosura, crêde, Não vem da face avelludada e bella; A formosura vem só d’alma; é d’ella Que brota a fonte que nos mata a sêde. - 17 - Flores do Campo, por João de Deus João de Deus Vós sois velhinha, já não tendes côres Que o rosto animem e que os olhos prendam, Mas tendes prendas que o amor accendam, Tendes ainda no inverno... flôres. Evora.[28] ROSA E ROSAS A Rosa trouxe-me rosas E nada mais natural, Mas eu prendas tão mimosas É que não tenho; inda mal. Quando tinha, se me désse, Não digo mais que uma flôr, Talvez de flôres lhe enchesse Esses cofrinhos d’amor.[29] Aguas passadas, Rosinha! Deixal-o; veja se vê N’este chão que já foi vinha Coisa que ainda se dê. Veja e escolha. Está na mesa O que ha em casa; é tirar —Tirar com toda a franqueza; Inda hão-de espinhos sobrar. Mas se espinhos, mas se abrolhos Lhe não agradam, amor! Mire-se bem nos meus olhos, Que ha-de ahi vêr... uma flôr. Evora.[30] - 18 - Flores do Campo, por João de Deus João de Deus A HERMANN Por occasião d’um beneficio a um asylo «Conchega a mãi ao peito o filho caro; Estende a pomba as azas no seu ninho Pelos filhinhos seus. Embala o arbusto agreste; o fructo amaro. Guia a bussola o nauta em seu caminho, Como um dedo de Deus. «Bebe a nuvem no mar, no rio a fera; Acha o tigre covil na antiga Hyrcania, Hoje em dia, Ghilã; Renasce a planta á luz da primavera, E no calix da flôr gotta espontanea Cahe á luz da manhã.[31] «Só eu no mundo um gosto em vão pretendo: Guebro entre os persas, entre os indios pária, Judeu entre christãos, Só eu debalde ao céo as mãos estendo, Como o naufrago á praia solitaria Debalde estende as mãos. «Tenho no livro azul onde Elle escreve Esse nome, que nunca pronuncia Quem bem o soletrou, Mil vezes tenho lido que não deve Queixar-se mais que a flôr que vive um dia Um verme como eu sou. «Porém, chorando, as mágoas diminuem. Custa muito soffrer sem que um gemido Ah! solte a nossa dôr. E se aos olhos as lagrimas affluem, É que este allivio nosso é permittido. O céo orvalha a flor.» Diz isto o orphão. De alma os ais lhe sahem, Como os suspiros de harpa eolea em ermo. Ninguem no mundo o ouviu.[32] Mas, se a teus pés as lagrimas lhe cahem, Tocou a mão de Christo a mão do enfermo; O Lazaro surgiu. - 19 - Flores do Campo, por João de Deus João de Deus Por isso, Hermann! espantas-me. Não scismo Nos prodigios da milagrosa vara Que o Senhor Deus te deu. Teu coração, Moysés do christianismo! Tua alma é que eu admiro, e te invejára Se o que é teu... fosse teu. Coimbra.[33] PRESENTIMENTO Emilia! não vês a lua Como vacilla e fluctua, Ora avança, ora recúa, E não ha passar d’alli? Tu és a imagem d’ella; És tão sympathica e bella, Meiga e timida, que ao vêl-a Me lembra sempre de ti! Tu és o botão de rosa Que abraçado á mãi formosa Só folga, só vive e goza N’aquella triste união; Treme até de ouvir a aragem Passar por entre a folhagem: Emilia! tu és a imagem Do mais timido botão.[34] Mas embora: o tempo gira. Um dia o botão, que aspira O ar da manhã... suspira E levanta o collo ao céo: Vê vir raiando a aurora, Abre o seio á luz que adora, Correm-lhe as lagrimas, chora... Chora o tempo que perdeu! Porque elle, Emilia! não teme Que a luz da aurora o queime; Elle suspira, elle geme Por vêr a luz que o creou. Nem tambem a lua pára: - 20 - Flores do Campo, por João de Deus João de Deus Se algumas vezes repara N’uma nuvem menos clara, É um momento e... passou. Não ha existencia alguma Que não tenha amor; nenhuma; Porque o amor é, em summa, Essencia de todo o sêr. Ha sempre quem nos attráia. Mil vezes que a onda cáia, Ha uma rocha, uma praia Aonde a onda vai ter.[35] Tu andas já presentida D’essa voz que te convida A encetar n’esta vida Ai! uma vida melhor... E em breve desenganada D’essa existencia isolada, Darás n’alma franca entrada A sentimentos de amor! Sil..."

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Flores do Campo by João de Deus

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