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O cancioneiro portuguez da Vaticana by Joaquim Teófilo Fernandes Braga

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"The Project Gutenberg eBook, O cancioneiro portuguez da Vaticana, by Teophilo Braga This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included with this eBook or online at www.gutenberg.net Title: O cancioneiro portuguez da Vaticana Author: Teophilo Braga Release Date: February 26, 2004 Language: Portuguese Character set encoding: ISO-8859-1 ***START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK O CANCIONEIRO PORTUGUEZ DA VATICANA*** [eBook #11299] Produced by Distributed Proofreaders Europe, http://dp.rastko.net Project by Carlo Traverso and Moises Gaudencio This file was produced from images generously made available by the Biblioth�que nationale de France (BnF/Gallica) at http://gallica.bnf.fr. THEOPHILO BRAGA. O Cancioneiro portuguez da Vaticana e suas rela��es com outros Cancioneiros dos seculos XIII e XIV. (Zeitschrift f�r Romanische Philologie, 1877) O apparecimento do Cancioneiro portuguez da Bibliotheca do Vaticano, que encerra quasi toda a poesia lyrica do fim da edade media em Portugal, veiu mais uma vez provar a superioridade da iniciativa individual sobre a estabilidade inerte das institui��es collectivas que apenas apresentam o vigor do prestigio official; desde 1847 que a Academia real das Sciencias de Lisboa deixava jazer no p� do archivo de Roma este importante documento nacional, e foram sempre ficticios os esfor�os para obter uma copia d'elle, que de ha muito devera ter sido reproduzida no corpo dos _Scriptores_, que forma uma das partes dos _Portugaliae Monumenta historica_. No emtanto, no estrangeiro o interesse scientifico muitas vezes se havia occupado do passado historico de Portugal, e foi a esta corrente que obedeceu o illustre philologo romanista Ernesto Monaci coadjuvado pelo activo e intelligente editor Max Niemeyer, restituindo a este paiz o texto diplomatico do mais precioso dos seus documentos litterarios. Ao terminar do modo mais consciensioso a sua empreza, escreve Monaci: "voglia il cielo che tornato il libro in Portogallo, diventi presto oggetto di studj novelli. � solo nella fonte delle tradizioni patrie che lo spirito di una nazione si ringagliardisce." (Canz. port., p. XVIII.) Infelizmente na litteratura portugueza ainda se n�o comprehendeu esta verdade salutar, e por isso o talento desbarata-se em architectar phantasmagorias de cerebros doentes ou em fazer traduc��es de romances dissolutos. Acceitando a responsabilidade das palavras do editor do Cancioneiro da Vaticana dirigidas a esta na��o, cabia primeiro do que a todos � Academia real das Sciencias de Lisboa responder pela seguinte forma: 1�. Publicar o texto critico e litterario restituido sobre a li��o diplomatica em grande parte illegivel f�ra de Portugal. 2�. Acompanhar esse texto com todos os dados bibliographicos de que se possa alcan�ar noticia, para sobre elles basear a historia externa da forma��o do Cancioneiro. 3�. Acompanhal-o de um bom glossario das palavras empregadas na dic��o proven�alesca da poesia palaciana. 4�. Por ultimo organisar um vasto quadro da historia litteraria de Portugal no periodo dos nossos trovadores, deduzido dos abundantes factos historicos que fornece o Cancioneiro da Vaticana. � para isto que existem as Academias nos paizes civilisados, que os governos as subsidiam, e que os seus membros t�m o f�ro de sabios. Em quanto a Academia real das Sciencias de Lisboa n�o cumpre este seu dever, cumpre-nos dar uma noticia d'este Cancioneiro, longos seculos perdido pelas bibliothecas estrangeiras. N'este codice se encontram as nossas origens litterarias, e as rela��es intimas que filiam a litteratura portugueza no grupo das litteraturas romanicas da edade media da Europa; aqui se acham representadas as duas correntes da inspira��o popular e palaciana ou erudita, bem como os costumes intimos de uma sociedade que nos � desconhecida, mas d'onde proviemos; os successos historicos a� t�m a sua nota accentuada; os nomes que figuram nas lendas genealogicas e nos feitos de armas no periodo da constitui��o da nossa nacionalidade a� se encontram assignando os mais saborosos cantares consagrados �s damas da c�rte, que serviam. Finalmente, ali est� o documento mais vasto em que a lingua portugueza se manifesta no seu esfor�o para de inconsistente dialecto romanico se tornar uma lingua escripta com uma grammatica fixa. Um livro assim, onde se acha representado o melhor da nossa antiga poesia durante os seculos XIII e XIV, � a joia de uma bibliotheca. Como nos mostraremos gratos ao estrangeiro que assim vem augmentar os nossos thezouros historicos e restituir-nos o fio perdido da nossa tradi��o nacional? Estudando-o. A primeira quest�o que o Cancioneiro portuguez do Vaticano sugere � determinar as suas rela��es com os antigos cancioneiros proven�aes portuguezes em grande parte perdidos; esta circumstancia complica o problema critico, e por isso importa bem determinar aproximadamente o numero d'essos cancioneiros para se fazer o processo de filia��o. Tal � o intuito d'este nosso primeiro estudo, bastante restricto, por que determinar o valor historico do Cancioneiro pelas correntes litterarias n'elle representadas, pela allus�o aos grandes successos, pelo uso de dadas formas poeticas, pelas personalidades dos principaes trovadores e pelo estado da lingua portugueza, � uma explora��o de tal forma vasta, que qualquer d'estas quest�es excede as propor��es de uma noticia. Come�amos pela critica externa do Cancioneiro, enumerando todos os cancioneiros portuguezes dos seculos XIII e XIV que contribuiram para a sua forma��o, procurando ao mesmo tempo o nexo que existiria entre elles, e pelas divergencias de texto quaes as collec��es que se perderam sem chegarem a ser conhecidas. 1. O Livro das Cantigas do Conde de Barcellos. No testamento do Conde D. Pedro, feito em Lalim em 30 de Mar�o de 1350, se l� esta clausula: "Item, mando o meu _Livro das Cantigas_ a el rei de Castella". Interpretando esta clausula, Varnhagem quiz por ella attribuir o Cancioneiro da Ajuda ao Conde de Barcellos, imprimindo-o em 1849 n'esse presupposto, com o titulo de _Trovas e Cantares... ou antes mui provavelmente o Livro das Cantigas do Conde de Barcellos_. Esta hypothese cedo caiu diante da evidencia dos factos; mas al�m d'este primeiro erro, existe n'esta affirmac�o um outro, que � o julgar o _Livro das Cantigas_ formado de can��es unicamente compostas pelo Conde de Barcellos. Era antigamente vulgar terem os principes cancioneiro seu, como objecto sumptuario, isto �, uma collec��o contendo as melhores poesias de seu tempo; sabendo-se a tendencia compiladora e erudita do Conde Dom Pedro, e a sua amisade com a aristocracia portugueza e gallega por causa do seu _Nobiliario_, � mais no espirito da historia litteraria a hypothese, que o _Livro das Cantigas_ era seu pelo facto material da propriedade ou da collecciona��o, e que este titulo designa um cancioneiro contendo composi��es de diversos trovadores. Vamos fundamentar esta hypothese: Primeiramente, o Conde D. Pedro, pelas can��es que d'elle restam na collec��o do Vaticano, era um mediocre trovador, e d'elle diz Affonso XI, a quem elle deixara em testamento _o seu Livro das Cantigas:_ Pois se de quant'el tem errado _serve Dom Pedro_, nem lhi d� em grado. Alludia � inferioridade das can��es de Bernal de Bonaval, que serviam ao gosto do Conde Dom Pedro. Em segundo logar, pelo Nobiliario se v� quanto o Conde era versado nas tradi��es bretans que adoptava como factos historicos; e no indice do Cancioneiro de Angelo Colocci se acham enumeradas como come�o d'esse codice: "1. Elis o ba�o, duque de Sansonha, quando passou na Gram Bretanha, qual ora chamam Ingraterra, al tempo del Rey Arthur ad combater com Tristano por que lhi avia occiso o padre em uma batalha. E andando um dia em sa busca foi por Giososa Guarda � era a reyna Isouda de Corualha, e enamorou-se ali elle, e fez por ella aquesta lais, o qual lais poemos aqui, porque era o melhor que fora feito.--2. Quatro donzellas, a Morouet de Irlanda, al tempo del rei Arthur.--3. Dom Tristan enamorado.--4. Dom Tristan.--5. D. Tristam para Genebra". Por este conte�do do come�o do Cancioneiro que pertenceu a Colocci, e por que no codice da Vaticana mais de uma vez se citam as formas poeticas bret�s dos _lais_, podemos concluir que esses cinco Lais pertenceriam ao _Livro das Cantigas_, o qual foi encorporado em uma grande collec��o formando talvez a parte que vae at� as can��es de el-rei D. Diniz que eram tambem um cancioneiro avulso. Por este mesmo codice de Angelo Colocci, de que resta o indice, achamos que antes da parte que constitue a colec��o de el-rei D. Diniz, estavam colligidas varias can��es de Dom Affonso Sanches, bastardo do rei, as can��es de Dom Affonso rei de Le�o, as de D. Affonso XI de Castella, e depois d'estar as do proprio Conde de Barcellos, que s�o ao todo nove, e tambem as de seu irm�o el rei D. Affonso IV. N�o era qualquer compilador ocioso que poderia satisfazer a sua curiosidade obtendo d'estes principes e monarchas as can��es mais ou menos pessoaes; o Conde de Barcellos estava em uma posi��o especial, sabia metrificar, era estimado na c�rte de D. Diniz e na de Affonso XI, e tendo passado algum tempo em Hesphanha de l� podia trazer can��es de varios trovadores que nunca estiveram em Portugal. Por tanto o seu _Livro das Cantigas_ f�ra formado n'estas condi��es particulares, e o apre�o que se lhe ligava � que o fez com que o deixasse em testamento ao elegante trovador Affonso XI de Castella. A posse de um livro de cantigas era quasi um titulo nobiliarchico; na can��o 76 da Vaticana, feita � maneira de sirvente por Affonso XI contra o Day�o de Calez, diz que elle tinha um _Livro de Sons_, por meio do qual seduzia todas as mulheres. Foi tambem pelo seu gosto pela poesia proven�alesca que o Conde de Barcellos manteve a sympathia de D. Affonso IV, filho legitimo de D. Diniz, e por isso em uma can��o de louvor � chamado o _rimante d'el-Rei_. Por tudo isto � mais cr�vel que o _Livro das Cantigas_ do Conde fosse o primeiro nucleo com que se formou por juxta-posi��o o grande cancioneiro portuguez, do qual um dos apographos � o codice da Vaticana; dizemos por juxta-posi��o, por que se lhe segue o de el-rei Dom Diniz, e porque muitas can��es de codice de Roma se acham a� mesmo repetidas, indica��o inevitavel de terem sido colligidas de fontes diversas. Quando o Conde Dom Pedro falleceu j� era morto Affonso XI, e isto explica como poderia extraviar-se em Castella esse _Livro das Cantigas_, e como Pero Gon�alves de Mendoza viria a obter a copia que se guardava em um grande volume em casa de D. Mecia de Cisneros, e pela primeira vez citada por seu neto, o Marquez de Santillana. 2. Livro das Trovas de El-rei Dom Diniz O corpo das can��es de el-rei Dom Diniz occupava uma grande parte do codice de Dona Mecia de Cisneros; occupava tambem uma parte importante no apographo de Colocci, bem como no codice da Vaticana. O modo como esta grande quantidade de can��es de el-rei Dom Diniz entrou em uma vasta compila��o explica-se naturalmente, por isso que pelo catalogo dos livros de uso de el rei Dom Duarte acha-se citado o _Livro das Trovas de el-rei Dom Diniz_, do qual se pode inferir terem existido varias copias, por que o numero das can��es varia entre as enumeradas no indice de Colocci e as contidas no codice da Vaticana, contando este ultimo cincoenta e uma can��es a mais. Alem d'isso, na parte do codice que encerra as can��es de D. Diniz, a can��o 116 acha-se repetida outra vez sob o numero 174 com variantes e differente disposi��o de estrophes, o que denota que essa parte foi compilada de copias secundarias, mas classificadas, como vemos pelo titulo das _Cantigas de Amigo_ dado a um certo genero de can��es, especialmente de imita��o popular. � provavel que os autographos que serviam para os traslados nitidos dos amanuenses fossem por vezes aproveitados por outros compiladores; de el-rei Dom Diniz andava tambem um codice poetico em poder dos Freires de Christo de Christo de Thomar. Os muitos jograes da Galiza, de Castella e de Le�o, que frequentavam a c�rte de Dom Diniz, tambem colligiriam esses corpos de can��es de _Serranilha_ e de _Mal-dizer_ que os privados dos monarchas trovaram, e que elles decoravam para cantarem de officio. Os jograes formaram collec��es dos melhores cantares para recitarem ou acompanharem � citola, pelo que recebiam dinheiro; o costume de ter jograes de _Segrel_ ao servi�o da casa real levava tambem a formar estes pequenos cancioneiros escolhidos. 3. O Cancioneiro da Ajuda (ou do Collegio dos Nobres). O facto de se encontrarem _cincoenta e seis_ can��es communs ao Codice da Ajuda e ao da Vaticana, torna indispensavel o resumir aqui o que se sabe da historia externa do Cancioneiro da Ajuda. As suas folhas s�o de pergaminho, a duas columnas, com pauta para a musica das can��es que se deveria escrever em seguida, e com varias vinhetas separando os diversos grupos de can��es de cada trovador e com letras historiadas. O cancioneiro est� truncado, pois que come�a na folha 41, e n�o existe o final, n�o s� por incuria dos possuidores, que o baralharam encadernando-o tumultuariamente com o Nobiliario, grudando algumas folhas �s capas, mas tambem por que o estado da copia, sem assignatura ou designa��o dos trovadores, letras historiadas incompletas, e falta de nota��o musical, nos revelam que o codice n�o foi dado por acabado. Esta collec��o come�ou-se ainda no reinado de D. Diniz, por que juntando-se as folhas l�-se escripto no c�rte d'ellas: _Rei Dom Diniz_, e d'isto tambem se pode deduzir, que se n�o perderam muitas folhas do principio e do fim. D'este codice foram encontradas mais 24 folhas avulsas na Bibliotheca de Evora, e � tradi��o corrente que na de Coimbra existiam algumas outras tambem. A inspec��o do Codice da Ajuda, confrontado com outros Codices europeus, mostra-nos que elle pertencia indubitavelmente a diversos trovadores; Varnhagem notou que existiam dezaseis vinhetas imperfeitamente coloridas, que est�o desenhadas junto �s can��es 2, 36, 37, 149, 157, 170, 173, 184, 190, 231, 233, 249, 253, 255, 259 e fragmento _h_. (Notas �s _Trovas e Cantares_, p. 348.) Alem d'este vestigio paleographico, o confronto com o Codice da Vaticana levou a achar os seguintes trovadores, communs aos dois Cancioneiros: Pero Barroso, Affonso Lopes Bai�o, Mem Rodrigues Tenoyro, Jo�o de Guilhade Estevam Froyam, Jo�o Vasques, Fern�o Velho, Ayres Vaz, D. Jo�o de Aboim, Pero Gomes Charrinho, Ruy Fernandes, Fernam Padrom, Pero da Ponte, Vasco Rodrigo de Calvelo, Pero Solaz, Pero d'Arm�a, e Jo�o de Gaia. Todos estes nomes s�o de fidalgos grandes privados de el-rei D. Diniz, e alguns j� figuram em doa��es de D. Affonso III, como D. Jo�o de Aboim e Affonso Lopes Bai�o; Mem Rodrigues Tenoyro vivia na c�rte de D. Affonso IV, e foi entregue a Pedro cruel em troca dos assassinos de Inez de Castro.[1] A parte n�o assignada e que n�o se encontra no Cancioneiro da Vaticana ser� por ventura o corpo das can��es escriptas durante o tempo em que a c�rte de D. Affonso III esteve fixa em Santarem. Alem d'isso a parte commum tem a particularidade de conservar a mesma ordem nas can��es, e ao mesmo tempo as variantes mais fundamentaes n'essas li��es. D'aqui se conclue, que j� existia um Cancioneiro formado, d'onde este da Ajuda estava sendo trasladado, mas que d'esse cancioneiro existiam differentes copias formadas, n�o directamente sobre elle, mas por meio dos cancioneiros particulares que o constituiram. A parte n�o commum ao codice de Roma, prova nos tambem que alguns d'esses cancioneiros parciaes se perderam, ou eram j� t�o raros que n�o chegaram a ser encorporados na collec��o. Admittida a hypothese de que o Cancioneiro da Ajuda, pelo facto de ter pertencido a el-rei D. Diniz e de andar encadernado junto do Nobiliario do Conde D. Pedro, fosse o proprio _Livro das Cantigas_, como primeiro quiz Varnhagem, o facto de apparecerem a� outros trovadores prova-nos a nossa hypothese, que o Conde D. Pedro compilara sob esse titulo as can��es dos trovadores seus contemporaneos. O numero de vinhetas imperfeitamente coloridas do cancioneiro da Ajuda s�o dezaseis; isto leva a inferir que esse codice era formado de dezeseis corpos de can��es que pertenciam a dezassete trovadores. De facto a coincidencia aqui � pasmosa: o numero dos trovadores communs ao Cancioneiro da Ajuda e da Vaticana � de dezesete! Note-se que este numero � o que se perfaz com os nomes de _Fernam Padrom, Jo�o de Gaya, e Pero d'Arm�a_, que ach�mos alem d'aquelles que primeiro descobriu Varnhagem. D'este numero se tira a conclus�o que o Cancioneiro da Ajuda pertence exclusivamente a esses dezessete trovadores, e que as cincoenta e seis can��es communs ao Codice da Ajuda eram as que andavam por cancioneiros parciaes, como as mais conhecidas, e pelas variantes que appresentam, as mais repetidas. Alem d'isso, pode suppor-se que o Cancioneiro da Ajuda n�o foi acabado, por que o estylo _limosino_ em que est� escripto, passou de moda, preferindo-se os _Cantares d'amigo_, as _serranilhas_, as _pastorellas_, os _lais_ e as _sirventes_, mudan�a de gosto proveniente da grande affluencia de jograes gallegos, leonezes e castelhanos � c�rte de Dom Diniz; e sob o gosto da c�rte de Dom Affonso IV prevaleceram tambem as can��es e musicas bretans, cuja corrente parece ainda reflectida no Cancioneiro da Ajuda, em um remotissimo vestigio, no fragmento de can��o em que se l� a palavra _guarvaya_, com que o trovador allude aos seus infelices amores. Nas _Leges Wallice_, XXIII, I, encontra-se o dom das nupcias, _kyvarus_, que se pagava ao cantor da c�rte: "Penkered (musicus primarius) debet habere mercedes de filiabus poetarum sibi subditorum; habebit quoque munera nuptiarum, id est _kyvarus neythans_, � feminibus nuper datis, scilicet XXIIIIor denarios."[2] A connex�o historica e a interpreta��o litteral mostram que a _guarvaya_ do trovador portuguez � o mesmo facto ou costume bret�o _kyvarus_; a verifica��o pelos processos da altera��o phonetica pertence para outro logar. Em todo o caso este vestigio � um dos nexos mais intimos que se pode achar com o codice perdido de Colocci, em que estavam j� colligidos alguns _lais_ bret�os. A musica do Cancioneiro da Ajuda tambem foi abandonada, por que foram substituidos nos costumes outros instrumentos e outras tonadilhas; no poema francez de Bertrand Du Guesclin, fala-se de cantores bret�os na c�rte de D. Pedro I de Portugal. Foi j� n'esta nova corrente poetica e com o fervor que ella despertara que se come�ou a formar o vasto cancioneiro, de cuja existencia se sabe por quatro apographos. Cr�mos que o compilador que trasladou ou organisou o texto authentico d'onde sa�u o apographo do Vaticano, n�o soube da existencia do Cancioneiro da Ajuda, apezar das cincoenta e seis can��es communs a ambos. Este facto ser� mais amplamente explicado. 4. O Cancioneiro de Dona Mecia de Cisneros. Na sua _Carta ao Condestavel de Portugal_, escripta antes de 1449, o Marquez de Santillana, no � XV, diz que se recordava de ter visto, quando era bastante menino, em poder de sua av� Dona Mecia de Cisneros, entre outros livros, um grande volume de cantigas.... O Marquez de Santillana nasceu em 1398, e sua av� Dona Mecia, na companhia da qual passou a sua infancia, morreu em Dezembro de 1418, em Palencia..."

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O cancioneiro portuguez da Vaticana by Joaquim Teófilo Fernandes Braga

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